Presenteei-me pelo “Dia do Advogado” – sim, tenho muito orgulho e acho que mereço o mimo, só por exercer a profissão! -, revendo o filme “Filadélfia”.
É uma lembrança dos meus primeiríssimos passos na profissão: Foi lançado em 1993 – ano de formatura; chegou no Brasil, em 1994 – ano em que, após o exame da OAB, tornei-me Advogado e ingressei na Advocacia Mariz de Oliveira, onde, vaidosamente, milito até hoje.
Assisti no antigo cine Paramount, na Brigadeiro Luis Antônio, onde hoje é o teatro Renault.
A memória era a de um filmaço. A memória era a de uma exclamação contra a homofobia e o preconceito. E a memória não me traiu. É tudo isso mesmo!
O filme já começa com a música do gigantesco Bruce Springsteen – de quem recomendo… todos os discos! Também recomendo sua autobiografia “Born to Run” – recordações sem um pingo de autoindulgência. “Streets of Philadelphia” ganhou o Oscar de melhor canção de 1994.
Com a linda música, o letreiro anuncia o tamanho do que virá: Tom Hanks; Denzel Washington; Jonathan Deeme…
Tom Hanks ganhou seu primeiro Oscar justamente pelo filme. Ganharia o segundo logo no ano seguinte, por “Forrest Gump”. Denzel Washington, que havia vencido por melhor coadjuvante por “Tempo de Glória”, ganharia o de melhor ator por “Dia de Treinamento”. A trajetória de ambos dispensa apresentações. Jonathan Deeme havia vencido o Oscar de melhor diretor pelo genial “O Silêncio dos Inocentes”. Time pesadíssimo, pois.
Hanks e Washington são dois Advogados. Voltariam a interpretar Advogados mais tarde: O primeiro em “A Ponte dos Espiões”; e o segundo em “Roman J. Israel”. Filmes que, igualmente, merecem revisão e comentários.
Pois bem. A história quase todo mundo conhece: Tom Hanks é um jovem advogado talentoso, com uma carreira em ascensão na maior firma de Advocacia da Filadélfia – ironicamente conhecida como “a cidade do amor fraterno”. É demitido quando se descobre que ele tem AIDS. Na verdade, quando se descobre que ele é gay. Para justificar a demissão, o escritório o sabota, forjando uma falsa negligência. Ele então contrata o colega Advogado interpretado por Denzel Washington para processar a banca pela injusta demissão.
A partir daí segue-se o enredo tradicional de filmes de tribunal “hollywoodianos”: Uma maniqueísta luta de Davi contra Golias. O humilde injustamente vitimado contra o poderoso opressor. Às vezes, claro, isso fica piegas. Outras vezes, eles afinam a sintonia. Temos que admitir que, em regra, eles são bons nisso. Aqui, acertaram na mosca.
Hanks faz, com luminosidade, um bravo lutador. Impossível não torcer por ele. A cena em que ele se emociona ouvindo ópera acaba por emocionar a nós também. Ganhou o Oscar ali.
Mas é Denzel Washington que me comove. Ele é o Advogado no filme.
Enquanto Hanks trabalhava em uma grande firma, com clientes graúdos; ele é um profissional, digamos, popular. Possui um pequeno escritório individual, especializado em indenizações. Distribui cartões a todos que encontra. Aparece com frequência na televisão, garimpando trabalho com quem sofreu danos de quaisquer naturezas.
Eu me lembrava, perfeitamente, da cena em que ele nos é apresentado. Em uma breve conversa, já conhecemos o personagem. Atendendo a um futuro cliente, com o braço amparado por uma tipoia, segue-se o seguinte diálogo. Ele começa perguntando:
– (Incrédulo) Explique-me como se eu tivesse seis anos de idade: A rua toda está livre, exceto uma pequena área em obras onde há um buraco enorme, claramente sinalizado e cercado. Você decide atravessar a rua justamente por lá. Cai no buraco. E quer processo a prefeitura por negligência?
– Sim. Temos um caso?
– (Sorrindo) Claro que temos!
Homofóbico – como quase todos do filme – ele, a princípio, recusa o caso de Hanks. Já era o décimo profissional a recusar. Assume para a esposa que não se sentiria bem ao lado de um gay.
Mas ele é o Denzel Washington. Um homem que, no início dos anos 90, já quer se reconstruir; lutar contra sua homofobia estrutural. É também um Advogado na melhor acepção da palavra. Conclui que o direito do cliente deve se sobrepor aos seus preconceitos pessoais. E pronto: a mim, já ganhou.
Destaca-se, também, a atuação da advogada dos ex-chefes preconceituosos que demitiram Hanks. É a personagem da atriz Mary Steenburgen – o par romântico do Dr. Emmett Brown, em “De Volta para o Futuro 3”. A gente se irrita com ela. Sinal de que a atriz fez bem o papel…
Ela usa a estratégia de culpar Hanks. Ele teria escondido a doença dos empregadores. E, pior, ele teria adquirido o vírus por conta de um comportamento promíscuo, inclusive traindo seu parceiro, vivido por Antonio Banderas – que faria papel de um Advogado em “Assassinos Múltiplos”; um filme de ação, não sobre Advocacia. É uma estratégia baixa, mas que poderia, sim, influenciar os jurados.
Nesta hora, o roteiro, bonzinho, é gentil com a Advogada. Depois de expor para os jurados a infidelidade de Hanks, ela volta para sua bancada e comenta, constrangida, com seu colega de defesa: “Odeio esse caso”. Ok, eu comprei: Era apenas uma profissional tentando fazer o melhor para o seu constituinte…
O filme faz questão de destacar a diferença do tratamento recebido por quem adquiriu AIDS por uma transfusão de sangue, como uma funcionária do mesmo escritório, não demitida; e o homossexual Hanks. Aquela fora vítima do azar. Este tivera um “comportamento imprudente”.
Nessa hora, em plenário, o já quase inteiramente resgatado Denzel Washington, discursa para o Juiz:
– Então vamos abrir o jogo logo, assumir o que devemos assumir! Este caso não envolve só AIDS, não é? Então vamos falar do que esse caso envolve: Nossa repulsa, nosso ódio, nosso medo dos homossexuais. E de como este clima de ódio e medo se traduziu na demissão deste homossexual em particular.
– (Juiz, altivo) Neste tribunal, a Justiça é cega para questões de raça, credo, cor, religião e orientações sexuais.
– Com todo o respeito, Excelência, não vivemos neste Tribunal. Vivemos?
– (Resignado) Não. Não vivemos.
Do lado externo, forma-se aquela divisão típica de filmes do gênero: de um lado, militantes da liberdade sexual; de outro, os intolerantes contra a homossexualidade. Deste segundo lado, um cartaz ganha close: “Adam and Eve, not Adam and Steve!”.
Não é spoiler dizer que Hanks e Washington venceram. É um filme norte-americano. A expiação final era evidente. Hanks morre redimido. Washington é um novo homem. Doce de quase dar cárie. A manipulação final, mostrando vídeos de um Hanks criança, puro, brincando feliz, tocando a música “Philadelphia”, de outro monstro, Neil Young, é quase uma covardia.
Mas, e daí? Quando se faz bem feito, por que não abraçar? É um filme. É inspirador! E eu ainda quero acreditar em uma Advocacia idealista e verdadeiramente vocacionada, lutando por causas nobres. Quero e acredito!
Na rotina diária da Advocacia, não há tanto glamour, lógico. Longe disso. Mas eu, em incontáveis vezes, já me senti como Hanks explicou em seu depoimento pessoal. Perguntado por que amava Advogar, respondeu:
– É que, de vez em quando, não com frequência, mas ocasionalmente, pode-se participar da Justiça sendo feita. Isto é emocionante quando acontece”.
Simples, assim. Profundo, assim.
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Por Sérgio Alvarenga